
Ingrid Kibelkstis: Psicóloga, especialista em Gestão Estratégica de Pessoas, em Criminal Profiling e em Rorschach Test.
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/ingrid-kibelkstis-338aa497/
Introdução
A inspiração para escrever este texto surgiu a partir do estudo de caso que será apresentado a seguir. No meu trabalho como perita do juízo em casos de família, especialmente em disputas de guarda entre os genitores, minha principal função é realizar avaliações psicológicas de todos os envolvidos, contribuindo para que o judiciário tome a decisão mais adequada para as crianças envolvidas. Essas avaliações envolvem uma análise cuidadosa de diversos aspectos, especialmente os emocionais, que são frequentemente os mais desafiadores.
No caso que vou relatar, a principal queixa da mãe era de alienação parental por parte do genitor. Contudo, à medida que o processo de avaliação avançava, ficou evidente que a situação era ainda mais complexa e grave do que parecia inicialmente.
Não vou tratar aqui especificamente sobre o processo judicial, mas sim sobre uma das crianças envolvidas na avaliação, a menina Marina (todos os nomes aqui apresentados são fictícios para preservar a identidade dos envolvidos).
Após a separação do casal, a família ficou dividida da seguinte forma: a mãe, sra. Vera e a filha Marina continuaram a viver na casa onde antes moravam em família e o pai, sr. José e a filha Julia foram viver em uma casa alugada, mas ainda no mesmo bairro.
Marina tinha 10 anos à época do exame. Era uma menina alta para a idade, com cabelos longos e pretos. Estava um pouco acima do peso, e este era um fator que a incomodava muito e trazia muita insatisfação. Ela usava o cabelo para cobrir a parte lateral do rosto e, em todas as sessões de avaliação, sempre estava de fone de ouvido e um tablet nas mãos.
Estudava em escola particular em uma cidade no interior do estado de São Paulo. Sua mãe trabalhava há mais de 20 anos em uma empresa multinacional na área administrativa e seu pai era funcionário público.
No primeiro encontro com a criança, ficou evidente que a mãe não havia avisado que estavam indo ao psicólogo e nem sobre o que se tratava a avaliação, o que gerou uma reação de grande frustração e raiva. Assim que me apresentei, a menina demonstrou agressividade, proferindo palavrões e insultos. Quando tentei conduzi-la à sala para a avaliação, ela pegou uma cadeira e a arremessou em direção à mãe. Com um olhar carregado de indignação, começou a gritar e a xingá-la, dizendo que havia sido enganada. Diante dessa situação, pedi que a mãe retornasse em outro dia, orientando-a a conversar com Marina de forma clara, explicando a importância da avaliação e garantindo que a menina não se sentisse novamente traída. Na outra semana, as recebi novamente. Desta vez, ela aceitou entrar na sala comigo, desde que sua mãe permanecesse ao seu lado durante o processo. Eu aceitei que a mãe nos acompanhasse até a sala de atendimento, para gerar mais segurança para a criança, porém solicitei que a mãe nos deixasse a sós, garantindo a qualidade do trabalho. Marina escolheu sentar-se de lado para mim, evitando qualquer contato visual direto, como se quisesse deixar claro seu desconforto e resistência. Sua postura refletia defesa e desafio, demonstrando o quanto estava relutante em estabelecer qualquer tipo de conexão. Com o passar do tempo, fui conseguindo, pouco a pouco, ganhar sua confiança, embora ela mantivesse uma atitude de superioridade, como uma forma de preservar sua barreira emocional.
Estudo de Caso
A sra. Vera e o sr. José foram casados por 20 anos, mas o casamento nunca foi um mar de rosas. Desde o início, eles raramente saíam de casa, pois o sr. José era muito caseiro, preferindo assistir TV, jogar vídeo game, ler livros ou ficar no computador. Ele era isolado e não interagia com a família, não tinha amigos e não gostava de receber visitas em casa. Nunca houve muito diálogo entre o casal, ele sempre se manteve distante.
Por outro lado, a sra. Vera demonstrava uma postura omissa e emocionalmente distante, características que ficaram evidentes ao longo do processo de avaliação. Durante as entrevistas e interações, ela apresentou comportamentos marcados pela frieza e pela ausência de demonstrações emocionais.
Durante o casamento, o sr. José cometeu traições envolvendo duas mulheres diferentes, o que abalou profundamente a relação conjugal. A descoberta desses fatos foi devastadora para sra. Vera e foi a partir da descoberta da segunda traição que ela começou a pensar na separação. A partir deste momento, a sra. Vera começou a se sentir muito ameaçada e passou a dormir no quarto da filha Marina. Essa situação perdurou por dois anos, até a decisão final de separação.
Durante toda a vida de Marina, seu pai apresentou comportamentos agressivos, tanto em palavras quanto em atitudes. Ele frequentemente a ofendia e, nos momentos de raiva, utilizava palavras duras e pejorativas, chegando a chamá-la de “monstro” e a culpá-la como sendo o “problema da casa”. Essas atitudes constantes de desvalorização e hostilidade deixaram profundas marcas emocionais em Marina, que se sentia muito triste diante dessas acusações. Incapaz de expressar sua dor de forma construtiva, Marina reagia com agressividade, demonstrando um padrão de defesa emocional que reforçava o ciclo de conflitos dentro do ambiente familiar.
Outro aspecto relevante dessa dinâmica familiar era a clara predileção do pai pela irmã de Marina, Julia, que tinha 16 anos à época do exame. O sr. José demonstrava atenção e cuidado desproporcionais em relação à filha mais nova, levando-a aos treinos de futebol, atendendo todos os seus pedidos e até mesmo lavando seu cabelo durante o banho, um hábito que perdurou até os 13 anos de Julia, sendo interrompido apenas após insistência da mãe. Em contrapartida, o sr. José nunca mostrou interesse pelas atividades de Marina, o que ampliava o sentimento de exclusão e rejeição desta última.
Adicionalmente, o comportamento do sr. José gerava um ambiente de insegurança para as filhas. Ele mantinha em casa um arsenal de armas e facas, incluindo granadas, munições e utensílios cortantes de diversos tamanhos, todos visíveis tanto para Marina quanto para Julia. O ambiente doméstico também era marcado por práticas inadequadas, como o uso frequente de maconha pelo sr. José na frente das crianças, enrolando os cigarros abertamente.
Outro comportamento peculiar do sr. José era sua obsessão por estocar alimentos e suprimentos. Ele acumulava produtos de limpeza, máscaras respiratórias, rádios e até pneus, justificando suas ações como parte de uma preparação para um possível “fim do mundo”.
Diante dessas situações, a sra. Vera adotava uma postura de submissão, sem coragem de confrontar diretamente o sr. José, sempre temendo possíveis retaliações. Apesar de discordar profundamente daquele ambiente e achar inadequado para suas filhas, ela se via paralisada, sentindo-se acuada e impotente, sem conseguir tomar atitudes para garantir um ambiente mais seguro e saudável para Marina e Julia.
Na chácara onde a família vivia, havia um abrigo para gatos de rua, localizado na parte externa da propriedade. O abrigo fora construído pelo sr. José, que se dedicava diariamente a alimentar os animais e a manter o local minimamente limpo. Contudo, após o divórcio dos pais, Marina foi incumbida de cuidar dos gatos, tarefa que realizava com muita relutância. Ela frequentemente mentia, afirmando que havia cumprido a obrigação, apenas para evitar a atividade. Em determinado momento, comprou “chumbinho” em uma loja próxima à escola e misturou o produto à ração dos gatos. O veneno resultou na morte de três animais, enquanto outros não chegaram a ingerir a ração contaminada. Marina relatou que observou os gatos agonizando e descreveu achar “interessante” a forma como respiravam cada vez mais devagar. Apesar de assistir à morte dos animais, não contou a ninguém, e o episódio gerou comoção entre os vizinhos e sua mãe, que se perguntavam: “Quem seria capaz de tamanha maldade?”.
Além disso, Marina relatou, sem demonstrar remorso, episódios em que cometeu pequenos furtos e enganou pessoas. Mencionou que pegou dinheiro da carteira da mãe, além de furtar objetos do quarto da irmã, que permanece intacto desde que esta deixou a casa. Marina também admitiu furtar mercadorias quando vai ao mercado, como chicletes, balas e chocolates. Ao ser questionada sobre suas motivações, Marina afirmou que age pelo prazer da emoção de furtar, destacando que não o faz por necessidade, pois sabe que sua mãe compraria os itens se ela pedisse.
Um episódio específico ilustra essa conduta: durante um passeio em um parque de diversões, Marina ganhou um ursinho de pelúcia após vencer um jogo. Por engano, a funcionária entregou dois ursinhos ao invés de um. Marina descreveu a satisfação que sentiu ao perceber que havia recebido um item extra, apesar de estar ciente de que não era correto.
No ambiente escolar, Marina enfrenta grandes dificuldades em estabelecer vínculos de amizade. Ela acredita que os colegas a utilizam como um “trampolim” para se aproximarem de outros amigos mais interessantes. Quando tenta se relacionar com novos alunos, acaba sendo rejeitada, o que a leva a concluir que “são todos maus”. A coordenadora pedagógica da escola destacou que Marina apresenta dificuldades de socialização, frequentemente demonstrando comportamentos impulsivos e uma comunicação ríspida e agressiva, que magoam os colegas e dificultam a construção de vínculos. Isso faz de Marina uma criança isolada, que parece incapaz de se adequar às regras sociais de convivência, sendo percebida como alguém “sem empatia”.
Apesar de suas notas estarem na média, Marina não demonstra esforço para melhorar seu desempenho acadêmico. Embora não desrespeite figuras de autoridade, refere-se às professoras de maneira desdenhosa, chamando-as de “aquelas mulheres”, demonstrando prepotência e arrogância.
O laudo psicológico de Marina revela uma autoestima fragilizada, que ela tenta encobrir por meio de barreiras emocionais que dificultam o acesso das pessoas ao seu mundo interno. Essa defesa reflete uma personalidade retraída e pouco acessível, marcada por uma máscara social que ela utiliza nas interações interpessoais. Manifesta agressividade intensa, possivelmente como uma resposta defensiva à sua própria insegurança e aos profundos sentimentos de inadequação que carrega. Sua interação social é prejudicada por uma inadequação marcante, agravada por dificuldades emocionais significativas e conflitos psicológicos intensos. Esses aspectos são acompanhados de sentimentos constantes de desamparo, autodesvalorização e uma autoimagem negativa, que frequentemente a levam à perda de controle e a comportamentos regressivos. Essa combinação de insegurança, fragilidade emocional e angústia interna afeta profundamente seu bem-estar psicológico, suas relações interpessoais e sua capacidade de adaptação ao ambiente social.
Transtorno de Conduta: Um Panorama Geral
O transtorno de conduta é uma condição psicopatológica caracterizada por um padrão persistente de comportamento antissocial, agressivo e desafiador em crianças e adolescentes. Esses comportamentos podem incluir roubo, agressões físicas, mentiras frequentes e a desconsideração pelas regras sociais. A relevância clínica e social do transtorno de conduta está no impacto que causa tanto para o indivíduo quanto para a sociedade, além de sua possível evolução para transtornos mais graves, como o transtorno de personalidade antissocial ou psicopatia. Mas até que ponto essa transição é inevitável? O que define se uma criança com transtorno de conduta se tornará um adulto psicopata?
De acordo com o DSM-V[1], o transtorno de conduta se caracteriza por comportamentos que violam os direitos alheios e normas sociais apropriadas para a idade, incluindo:
-
- Perseguir, atormentar, ameaçar ou intimidar frequentemente os outros;
-
- Iniciar brigas físicas de forma recorrente;
-
- Utilizar armas que podem causar ferimentos graves, como paus, pedras, facas ou armas de fogo;
-
- Demonstrar crueldade física com pessoas ou animais;
-
- Realizar roubos ou assaltos, confrontando diretamente a vítima;
-
- Submeter alguém a atividades sexuais contra a vontade;
-
- Provocar incêndios intencionalmente, visando causar danos significativos;
-
- Destruir propriedades alheias de forma deliberada, sem o uso de fogo;
-
- Arrombar e invadir casas, prédios ou veículos;
-
- Mentir ou enganar para obter benefícios materiais ou escapar de responsabilidades;
-
- Furtar objetos de valor;
-
- Permanecer fora de casa durante a noite, desobedecendo proibições parentais (iniciado antes dos 13 anos);
-
- Fugir de casa pelo menos duas vezes, passando a noite fora enquanto vivia com pais ou responsáveis (ou uma vez, mas por um longo período);
-
- Faltar repetidamente à escola sem justificativa (iniciado antes dos 15 anos).
Os critérios diagnósticos do DSM-V para transtorno de conduta são aplicáveis a indivíduos com menos de 18 anos. Para o diagnóstico, é necessária a ocorrência de pelo menos três desses comportamentos nos últimos 12 meses e de pelo menos um deles nos últimos seis meses. Além disso, esses comportamentos devem causar limitações significativas no desempenho acadêmico, social ou ocupacional.
É comum que esses jovens apresentem um impacto maior no ambiente ao redor do que em si mesmos. Eles frequentemente não demonstram sofrimento emocional ou remorso por suas ações, nem se preocupam com os sentimentos ou direitos das pessoas que são afetadas por seus atos.
O transtorno de conduta frequentemente emerge na infância ou adolescência e é mais comum em crianças expostas a fatores de risco como negligência, abuso físico ou emocional, pobreza extrema e lares disfuncionais. Além disso, fatores genéticos também desempenham um papel significativo, contribuindo para traços como impulsividade e dificuldades de regulação emocional. É importante diferenciar o transtorno de conduta de comportamentos desafiadores normativos da infância. Embora crianças possam ocasionalmente mentir ou desobedecer, no transtorno de conduta esses comportamentos são persistentes, intensos e interferem significativamente em suas relações e desempenho social ou escolar.
No caso apresentado acima, Marina cumpre os critérios diagnósticos para transtorno de conduta, incluindo mentir ou enganar pessoas para benefício próprio, furtar objetos de valor e, o mais preocupante, crueldade com animais. Pesquisas apontam que crianças que cometem maus tratos contra animais, o prognóstico do transtorno de conduta tende a ser mais desfavorável, demandando intervenções precoces e intensivas para minimizar os riscos de evolução para quadros mais graves.
Do Transtorno de Conduta à Psicopatia: Existe uma Conexão?
A relação entre transtorno de conduta e psicopatia tem sido extensivamente investigada. O transtorno de conduta em si não é uma sentença para o desenvolvimento de psicopatia. Fatores ambientais, como o suporte emocional, e intervenções precoces podem moderar essa evolução. Além disso, avanços na neurociência mostram que a neuroplasticidade pode abrir caminhos para a reabilitação, mesmo em casos graves.
Experiências adversas na infância são frequentemente associadas ao desenvolvimento de transtorno de conduta. Crianças expostas a abuso, negligência ou dinâmicas familiares disfuncionais têm maior risco de desenvolver comportamentos antissociais.
Entretanto, não é apenas o ambiente que contribui. Uma interação complexa entre fatores genéticos e ambientais define o desenvolvimento do transtorno de conduta. Por exemplo, crianças com predisposição genética a traços de impulsividade podem ser mais vulneráveis a condições ambientais adversas (Rios, 2019[2]).
Pesquisas indicam que a maioria dos adolescentes diagnosticados com transtorno de conduta não desenvolvem comportamentos antissociais ou características de psicopatia na vida adulta. A maioria não chega a ser condenada por crimes e pode se tornar cidadãos produtivos, desde que recebam suporte social adequado. Por outro lado, é sabido também que a maioria dos psicopatas adultos (se não todos) tiveram comportamentos transgressores quando crianças.
Para um prognóstico mais positivo, é essencial que essas crianças e jovens desenvolvam boas habilidades sociais, contem com uma estrutura familiar estável, tenham relações saudáveis com colegas na escola e evitem o uso de drogas.
Conclusão
O transtorno de conduta é um sinal de alerta que não deve ser ignorado. Embora algumas crianças com transtorno de conduta possam desenvolver psicopatia, muitas podem superar os desafios com suporte adequado e intervenções eficazes. A prevenção e o tratamento precoce são fundamentais para transformar trajetórias de risco em oportunidades de reabilitação.
No caso de Marina, a ausência de laços afetivos sólidos, o sentimento constante de rejeição e o isolamento social, gerou um sofrimento emocional profundo.
A negligência e a violência emocional perpetradas pelo pai são fatores significativos que contribuem diretamente para o sofrimento de Marina e para a formação de padrões comportamentais disfuncionais. A falta de apoio emocional, o distanciamento afetivo e a incapacidade de reconhecer suas necessidades emocionais geraram um ambiente de abandono e desvalorização. Esse cenário, aliado à negligência de suas necessidades emocionais e ao tratamento desdenhoso, exacerbou o sofrimento psicológico da criança e fortaleceu a construção de sua autoestima fragilizada.
A violência emocional, caracterizada por palavras e atitudes desvalorizadoras, causou um impacto profundo na saúde mental de Marina, dificultando a formação de vínculos saudáveis e contribuindo para sua tendência ao isolamento. Esses comportamentos do pai não apenas agravaram o quadro de rejeição e inadequação social de Marina, mas também favoreceram o surgimento de comportamentos agressivos e impulsivos, típicos do transtorno de conduta.Quanto à mãe, esta também não foi capaz de criar vínculos saudáveis com a criança, demonstrando um total afastamento emocional. Em diversas situações, demonstrou insegurança e receio de exercer a autoridade necessária perante a filha, o que contribuiu para a fragilidade no relacionamento entre elas. Neste sentido, essa ausência de autoridade e total omissão, contribuíram para que Marina exercesse total poder perante a mãe, tendo todas as suas necessidades atendidas por ela.
[1] AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
[2] Rios, D. R. (2019). Crianças e Adolescentes Psicopatas: Transtorno de Conduta e Suas Punições. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso) – Faculdade Vale do Cricaré. Espirito Santo.